Cartas de um diabo a seu aprendiz: vale a pena? Qual edição?
Cartas de um diabo a seu aprendiz é um livro de 1942 que continua funcionando, e o problema de quem vai comprá-lo hoje não é decidir se vale a pena. É decidir qual edição. Existem duas em catálogo, ambas da Thomas Nelson Brasil, e a editora declara coisas diferentes sobre cada uma.
A resposta curta: compre a edição comum se você quer o texto e mais nada. Compre a edição anotada se quer o texto acompanhado de comentários sobre termos, contexto histórico e passagens de outras obras de Lewis. As duas trazem o texto na íntegra.
E tem uma armadilha que quase nenhuma resenha menciona: quem procura o livro pelos nomes que ouviu citar pode receber um livro com outros nomes. Explico abaixo.
Esta página tem links de afiliado. Se você comprar por eles, o site recebe uma comissão, sem custo extra para você. Isso não muda o que está escrito aqui: os livros que não recomendo continuam sem recomendação, com link ou sem.
O que é este livro, em uma resposta
São 31 cartas. Quem escreve é um demônio veterano, do alto escalão do Inferno, e quem recebe é o sobrinho dele, um demônio novato encarregado de garantir a condenação de um homem comum. As cartas são o manual de instruções dessa tarefa: como explorar cansaço, vaidade, irritação com o próximo e pequenas concessões do dia a dia para afastar alguém da fé sem que ele perceba o movimento.
Saiu em forma de livro em fevereiro de 1942, pela Geoffrey Bles, com 175 páginas na edição original em inglês, e é dedicado a J. R. R. Tolkien. As cartas tinham sido publicadas antes, semanalmente, no periódico The Guardian, entre maio e novembro de 1941 (Wikipédia EN, consultada em 2026-10-14).
A forma é o que mais desorienta quem chega sem aviso: não há narrador. Não existe uma voz por cima contando a cena nem explicando o que aconteceu entre uma carta e a seguinte. O leitor monta o cenário sozinho. A inversão é o método: o que normalmente se leria como vício aparece ali como estratégia, e o que se leria como virtude aparece como obstáculo a contornar.
Vale registrar um fato que surpreende: o próprio Lewis não gostou de escrever este livro. Ele disse que escrever foi “not fun” e que resolveu nunca escrever outra “Letter”. A citação é registrada pela Wikipédia EN, que a atribui ao prefácio da edição de 2001 (p. 184). Não vi a página 184 impressa, então atribuo a citação à Wikipédia.
Qual das duas edições brasileiras comprar
Aqui está a decisão, com o que cada ficha de loja declara. Os dois conjuntos de dados foram extraídos do HTML das respectivas páginas, conferidos em 2026-10-14.
| Edição comum | Edição anotada | |
|---|---|---|
| ASIN | 857860184X | 6552176120 |
| ISBN-13 | 978-8578601843 | 978-6552176127 |
| Publicação | 18 de novembro de 2017 | 31 de março de 2026 |
| Páginas | 208 | 224 |
| Tradução | Gabriele Greggersen | Gabriele Greggersen e Marina Saraiva |
| Formato | capa dura | capa dura |
| O que a editora declara | “o texto na íntegra” e a Coleção Especial C.S. Lewis | “o texto na íntegra, acompanhado de comentários laterais“ |
O que separa as duas não é o número de páginas. É o que a editora declara acrescentar. Na anotada, a descrição diz literalmente que os comentários laterais oferecem “informações contextuais, elucidação de termos, significado histórico e trechos de outras obras de Lewis”. É uma edição para quem quer entender o texto enquanto lê, e não depois. A comum é a da Coleção Especial C.S. Lewis: ela é o texto, e para muita gente isso basta.
Onde eu recomendo cada uma. Se você já leu o livro e quer reler com apoio, a anotada é a escolha óbvia. Se é sua primeira vez e você quer só conhecer a obra, a comum serve, e é a que tem encaminhamento nesta página. Se pretende usar o livro em estudo de grupo, a anotada economiza a pesquisa que você faria depois.
Por que os nomes dos personagens mudam
Este é o ponto que faz leitor achar que comprou o livro errado, e ele é real. Os dois demônios têm nomes diferentes conforme a tradução. A Wikipédia registra estas variações brasileiras: o veterano já foi traduzido como Murcegão, Maldanado, Fitafuso e Coisa-Ruim; o aprendiz, como Vermebile, Vermelindo e Cupim. Em algumas traduções, o homem que os dois tentam se chama João.
Quem ouviu falar do livro com os nomes Maldanado e Vermelindo ouviu falar da tradução que está em catálogo hoje. E aqui vale a distinção de fonte, porque as duas edições não têm a mesma força neste ponto:
- A edição anotada declara esses nomes na descrição da editora: são as cartas escritas por Maldanado a seu sobrinho, Vermelindo.
- A edição comum não nomeia personagem nenhum na descrição da editora: ela fala da correspondência entre um diabo e seu sobrinho aprendiz, sem nome. Os nomes aparecem na página dela, mas vêm de um depoimento de leitor, não da editora.
Não é erro de edição nenhuma. São traduções diferentes da mesma obra, feitas em décadas diferentes por tradutores diferentes. Mas quem não sabe disso abre o livro esperando Maldanado e encontra Fitafuso, e conclui que recebeu o produto errado.
Uma edição brasileira mais antiga, a da Martins Fontes de 2009 (ISBN 9788578271114), usa Fitafuso e Vermebile, e sua ficha no Goodreads declara ser baseada na edição do sexagésimo aniversário, “que inclui pela primeira vez Fitafuso propõe um drinque”. Existe, portanto, uma edição brasileira que traz o ensaio de 1959 junto com as cartas.
Nenhuma das duas edições em catálogo hoje declara esse ensaio. Procurei os termos nas duas fichas e não há uma ocorrência sequer. Não estou dizendo que a edição em catálogo não o traga: estou dizendo que a ficha não o menciona, e é isso que dá para conferir antes de comprar.
Precisa ler as cartas em ordem?
Ajuda, mas não é obrigatório.
Como são 31 cartas de um mesmo remetente ao mesmo destinatário, existe uma linha que avança: o homem sendo tentado atravessa conversão, rotina e crises, e a posição do sobrinho aprendiz muda ao longo do livro.
Ao mesmo tempo, cada carta trata de um assunto relativamente fechado, e dá para abrir o livro em qualquer ponto sem se perder. Quem lê devagar aproveita mais, porque cada uma pede reflexão e não velocidade.
Para quem não serve
Não recomendo este livro para três grupos, e os três são específicos.
Quem quer narrativa convencional. Não há narrador, não há descrição de cena, não há diálogo direto. Tudo chega pela voz de um personagem escrevendo para outro, e quem gosta de ser conduzido por uma história vai sentir falta de chão. A moldura satírica exige montar o cenário na cabeça.
Quem quer o texto sem intermediário. Se você desconfia de nota de rodapé e prefere formar sua leitura antes de ouvir o que alguém achou, a edição anotada vai te atrapalhar. A comum é a sua.
Quem procura resposta pronta sobre doutrina. O livro é uma sátira escrita em 1942, do ponto de vista de dentro do Inferno. Ele não é um manual de teologia nem um texto devocional, e não se organiza para dar conclusões. Quem chega esperando um guia de estudo vai encontrar literatura.
Vale dizer com todas as letras: entre os depoimentos que consegui conferir, um dos leitores achou o livro datado e ainda assim o recomendou. Isso está mais abaixo, com nome e data, e é o contraponto mais útil desta página. Não é ressalva de fachada.
O que leitores disseram
Esta é a parte que este site faz e as páginas que rankeiam não fazem: cada depoimento abaixo foi conferido um a um contra a página da loja, com nome, data e link para a origem.
O teto, dito antes dos elogios. Foram fornecidos 19 depoimentos. Desses, 7 puderam ser conferidos contra a página (nome, data e texto batendo) e ganharam link individual. 12 não puderam ser recuperados, e por isso não são citados aqui, nem os elogiosos. Dos 7 conferidos, 6 falam do livro e 1 fala apenas da entrega. A amostra é pequena e deve ser lida como pequena.
Newton Carneiro primo, em 28 de junho de 2021, é o depoimento mais longo do conjunto e trata inteiramente do livro. Ele descreve o mecanismo da obra: as cartas ensinando “passo a passo o que o diabo jovem deve fazer para tentar os humanos, confundi-los, desviá-los dos caminhos retos”. Ele também destaca uma passagem sobre livre-arbítrio, em que o demônio veterano explica que Deus “ama tanto seus filhos que os quer livres” e por isso se recusa a conduzi-los, e é dessa liberdade que nasce a oportunidade de tentar. (ver o depoimento)
Clésio Parada Literária, em 11 de outubro de 2026, descreve o efeito da ironia: “Debaixo do verniz cômico e satírico está a mensagem mais importante e cara, não só ao autor, mas a todos os cristãos”. É também o leitor que usa os nomes Maldanado e Vermelindo ao falar do livro, o que mostra de onde vêm esses nomes na página da edição comum. (ver o depoimento)
Rayan, em 28 de setembro de 2026, é curto e resume o que o livro tem de mais característico: “Humor muito inteligente. Interpretações incríveis e reveladoras ações e reações do cotidiano.” (ver o depoimento)
Adriane, em 19 de setembro de 2026, fala de releitura: “Esse é daqueles para lermos várias vezes.” (ver o depoimento)
Jessica do Nascimento Sartor Dias, em 20 de setembro de 2026, junta o conteúdo e o objeto: diz que o livro “descreve de uma forma sutil e clara como o diabo nos tenta todos os dias” e que o material é de boa qualidade, em capa dura. (ver o depoimento)
Cris Aguiar, em 25 de setembro de 2026, é o contraponto, e por isso o depoimento mais valioso da lista. Nas palavras dela: “Em uma fina ironia, inteligente e embora datada ainda tem conceitos atemporais”. Ela acrescenta: “Sutil e profundo, gostei muito.” É a única voz do conjunto que aponta um limite e recomenda mesmo assim. (ver o depoimento)
Vanderson Nunes, em 13 de outubro de 2026, fala só da entrega: o livro chegou bem embalado, um dia antes do previsto, com um leve amassado no canto. Está aqui porque é um dos sete conferidos, e omiti-lo seria escolher a dedo os depoimentos que me favorecem. (ver o depoimento)
Perguntas frequentes
Este livro é um livro cristão?
Sim. É ficção satírica escrita por um autor cristão, e o assunto é tentação, fé e o modo como alguém se afasta dela aos poucos. A história é contada do ponto de vista dos demônios, o que confunde quem chega esperando um texto devocional. É literatura com tema cristão, não um manual de doutrina.
Vale a pena ler?
Para quem gosta de sátira, de ironia e de observar comportamento humano por um ângulo invertido, sim. Para quem quer narrativa conduzida, provavelmente não, pela ausência de narrador. E vale considerar que um dos leitores que conferi achou o livro datado em parte, mantendo a recomendação.
Qual das duas edições eu compro?
Depende de uma pergunta só: você quer entender o texto enquanto lê, ou quer o texto? Quer entender, compre a anotada, que declara comentários laterais com contexto, termos e trechos de outras obras de Lewis. Quer só o texto, compre a comum, que é a mesma obra na íntegra e tem encaminhamento aqui.
Preciso ler as cartas em ordem?
Não é obrigatório, mas ajuda. Há uma linha que avança ao longo das 31 cartas. Como cada carta trata de um assunto relativamente fechado, dá para ler uma por vez ou abrir em qualquer ponto sem se perder.
Por que os nomes dos personagens são diferentes em algumas edições?
Porque são traduções diferentes da mesma obra, feitas em épocas e por tradutores diferentes. O demônio veterano já apareceu em português como Murcegão, Maldanado, Fitafuso e Coisa-Ruim; o aprendiz, como Vermebile, Vermelindo e Cupim. Maldanado e Vermelindo são os nomes da tradução que está em catálogo hoje. Não é erro de edição nenhuma, mas confunde quem procura o livro pelos nomes que ouviu citar.
A edição anotada traz o ensaio "Maldanado Propõe um Brinde"?
As duas edições em catálogo não o declaram em nenhum lugar das respectivas fichas, e é só isso que consigo afirmar. O ensaio existe, é de 1959, e uma edição brasileira mais antiga (Martins Fontes, 2009) declara trazê-lo. ## Se depois disso você quiser conferir a edição O link abaixo vai para a loja, para a edição comum, que está em catálogo com o texto na íntegra e o projeto gráfico da Coleção Especial C.S. Lewis. Se você comprar por ele, o site recebe uma comissão, sem custo extra para você. Se o que você quer é a anotada, ela não tem link nesta página, e isso é deliberado: este site indica a edição que serve mesmo quando não ganha nada. Última atualização: outubro de 2026
Se depois disso você quiser conferir a edição
O link abaixo vai para a loja, para a edição comum, que está em catálogo com o texto na íntegra e o projeto gráfico da Coleção Especial C.S. Lewis. Se você comprar por ele, o site recebe uma comissão, sem custo extra para você.
Se o que você quer é a anotada, ela não tem link nesta página, e isso é deliberado: este site indica a edição que serve mesmo quando não ganha nada.
Última atualização: outubro de 2026